Para além do biológico: onde o afeto é o único laço.
- Trícia Ferreira

- 14 de mai.
- 3 min de leitura
Existem caminhos para a maternidade que não começam em um teste de farmácia, mas em uma decisão profunda de que o amor precisa de um lugar para transbordar. Nessas trajetórias, o "tornar-se mãe" é um exercício diário de paciência, entrega e, acima de tudo, um mergulho em emoções complexas que a biologia tradicional nem sempre experimenta da mesma forma.
Quando falamos de Fertilização In Vitro (FIV), estamos falando de uma espera que acontece entre tubos de ensaio e muita esperança. Mas, emocionalmente, o que vemos é uma mulher tentando manter sua identidade enquanto seu corpo vira um território medicalizado. Existe um desgaste silencioso em depositar a expectativa de felicidade em cada ciclo, em cada ultrassom. É o luto de cada negativo que precisa ser processado rapidamente para dar lugar à força da próxima tentativa. A FIV é um teste de resiliência para o casal e para a autoestima da mulher, que muitas vezes sente que seu corpo "falhou", quando, na verdade, ele está apenas percorrendo um caminho diferente.
Já na Adoção, o lado emocional é marcado pelo "parto do encontro". Existe uma ansiedade única na fila de espera — uma mistura de prontidão para o amor e o medo do desconhecido. Diferente da gestação biológica, onde há nove meses de preparo físico, na adoção o preparo é psicológico e jurídico. É preciso trabalhar o desapego da "criança idealizada" para acolher a "criança real", que já traz consigo suas próprias memórias, seus vividos e suas e dores. O desafio emocional aqui é o da conquista: é construir o vínculo na entrega mútua, provando que a maternidade nasce na disponibilidade de ser porto seguro, independentemente da genética.

Essa construção ganha contornos de muito afeto na Maternidade Homoafetiva. Aqui, o emocional é atravessado pelo desejo de validação — tanto interna quanto social. Para um casal de mulheres, maternar é um ato de afirmação. Existe a alegria da escolha compartilhada, mas também a vulnerabilidade de lidar com as burocracias do reconhecimento e o olhar curioso do outro. Emocionalmente, é uma jornada de desconstrução: as mães precisam definir seus próprios papéis, sem os roteiros prontos da sociedade, baseando-se exclusivamente no que sentem e no que desejam construir. É a prova de que o afeto, quando é o norte, é capaz de edificar uma família sólida e cheia de significado.
No fim das contas, seja pela ciência, pela lei ou pela parceria, essas mães mostram que o filho não "vem" por acaso; ele é muito desejado. É um amor que nasce da escolha consciente e da coragem de trilhar caminhos novos.
Indicações para ampliar o olhar sobre o tema..
Para ler: O filho de mil homens (Valter Hugo Mãe) Sinopse oficial: A solidão, para Crisóstomo, é um filho que não se tem. Aos quarenta anos, o pescador decide buscar o que lhe falta. Vai encontrar no jovem Camilo, órfão de uma anã, a chance de preencher a metade vazia, e em Isaura, enjeitada por não ser virgem, a possibilidade de ser mais do que completo. Com personagens tão excêntricos quanto humanos, que carregam suas tragédias com lirismo e ingenuidade, o festejado Valter Hugo Mãe povoa o vilarejo litorâneo onde a vida é levada com singela tristeza e a esperança do amor faz surgir uma alegria pequena, mas firme, porque construída com o possível. Existe filme baseado no livro, e você pode conferir no Netflix.
Para assistir: Lion, uma jornada para casa (Filme, Netflix).
Sarro, um menino indiano de apenas 5 anos de idade que se perde do irmão em uma estação de comboios e acaba morando na rua e passando por dificuldades até ser adotado por um casal australiano. Anos depois, o garoto decide ir em busca de sua família biológica. Melodramático e baseado em uma história real, “Lion” denuncia mazelas sociais do país asiático e retrata a busca incansável de um homem por suas raízes. Com carinho, Trícia Ferreira 🌻🫂✨ Psicóloga Clínica (CRP 10/02488) @triciaferreirapsi

Comentários